Otaku? És ou não és?


Caso você tenha olhado a área “sobre” do site,verá que em meio ao texto, Otaku é o único termo destacado por aspas. As razões poderiam ser muitas, mas também são poucas. Neste artigo, você entenderá um pouco mais sobre essa expressão, do meu ponto de vista.

Primeiramente, só para deixar claro, não há um teor conotativo e diplomático, nem tão pouco psicológico, sobre o assunto em questão. As opiniões e impressões de acontecimentos em minha vida, vida de amigos e de conhecidos, descendentes de japoneses (que moraram/morem ou nunca tenham ido para o Japão), são base deste artigo e não necessariamente definem escolhas nem tão pouco, obrigações.

Quando ouvimos/lemos a palavra otaku, logo relacionamos com animês, mangás, light novels e tantas outras coisas. Em geral, ninguém está errado quando associa dessa forma, mas você sabia que essa não é a única forma? Otaku também é uma pejorativa, ou seja, uma ofensa, mais precisamente, um preconceito. Primeiro, vamos remeter ao começo de tudo.

Como alguns de vocês já devem saber, pois devem ter pesquisado sobre a língua japonesa pelo menos alguma vez, o japonês possui 3 alfabetos (Sim, 3. Esqueça rōmaji e forma fonética). Com isso, algumas palavras acabam por ter o MESMO som, mas com significados diferentes, tornando a forma de escrevê-las, a única diferença entre si. A palavra que conhecemos como “Otaku”, tem esse acontecimento.  お宅 (Otaku, escrito em Kanji) significa sua casa, seu lar, ou até mesmo o nosso “tu/você”. おたく ou  オタク  (Otaku, escrito em hiragana ou até mesmo em katakana por ter outro significado fora do Japão) significa uma mistura de “nerd” com “geek”, dando origem basicamente a palavra viciado.

Em um dado momento, no Japão, uma obra utilizou do termo para definir um assassino em série, baseado em um verdadeiro assassino em série, conhecido como Tsutomu Miyazaki, o qual era um antigo técnico fotográfico, viciado em mangás e filmes de terror, que acabou por mutilar, estuprar e matar 4 crianças japonesas. Não entrarei em muitos detalhes desse caso, pois é uma história realmente macabra e a qual seus detalhes não tem valor para o artigo. Mas enfim, o termo Otaku acabou sendo aterrorizante para a maioria das pessoas, e todo aquele que tinha um costume por deveras obsessivo, passou a ser considerado Otaku.

Mas se Otaku era algo bom e virou algo ruim, como ele veio parar nesse lado do planeta da forma que conhecemos? Como este site tenta trazer o conteúdo japonês para nossa realidade, vou usar só a base de acontecimentos no Brasil.

Muitas histórias contam de diversas formas isso tudo (Wikipédia, internet, entre outros), mas vou contar o que consegui de informação conversando com filhos(as) de descendentes japoneses, com adição da internet. No Brasil, o termo era utilizado em sua forma original para tratar de forma respeitosa a família dos outros (assim como no Japão), mas com o tempo, acabou sendo um termo para discriminar aquelas famílias que saiam do Japão para tentar a vida em outro lugar. Diversas famílias, na época do grande êxodo japonês, sofreram ao ver este termo sendo usado contra elas.

Anos mais tarde, o termo acabou sendo usado por uma revista, que seria um grande marco da época, a Animax. Mas o que a Animax não contava na época, era que sua estratégia criaria um problema gigantesco. Primeiro, a Animax era uma sub-divisão de uma empresa que tratava sobre armas de fogo. Segundo, ela resolveu adaptar o termo “Otaku”, que definia (e taxava) os japoneses imigrantes, para um termo que definia pessoas que gostavam de animês e mangás (único conteúdo visual que o Brasil realmente conhecia sobre o Japão). A falta de explicações por parte da revista, assim como meios de comunicação relativamente ruins (lembrem-se, o mundo nem sempre foi voltado à internet), causaram com que este termo fosse usado para definir as pessoas, mas ao mesmo tempo uniu a conotação que a expressão vinha ganhando, com a origem da revista e o conteúdo que a Animax disponibilizava. Pessoas que conheciam as animações japonesas há mais tempo e conviviam com a tentativa de aceitação dos japoneses, viram uma ofensa ser banalizada e ridiculizada, assim como ser usada contra eles mesmos.

O resultado é o que você tem hoje. Fãs de animês/mangás/light novels digladiam-se em fóruns/redes sociais com denominados Otakus para tentarem definir o ponto de vista deles como correto, já que o termo Otaku, quando introduzido no Brasil, era uma ofensa, que algum tempo depois se tornou algo bom e, mais tarde ainda, quando amplamente falado sobre os acontecimentos no Japão, passou a ser considerado um sinônimo para viciados em animês. Assim como, Otakus tentam explicar que o termo nada tem por caracterizar vicio ou ofensa, e sim criar um “movimento” sobre o gosto deles. Note que essa discussão não existe somente no Brasil, acontecendo em diversos países, e até mesmo no Japão.
Mas e qual é o termo correto? É certo falar Otaku? É errado? Não há certo, assim como não há errado. Devo deixar claro, que o termo Otaku, com os anos, está sendo amenizado no Japão, mas ainda é considerado algo ofensivo pelos fatos recentes (veja bem, a execução de Miyazaki ocorreu em 2008, apesar de os assassinatos terem acontecido nos anos de 1988-89). A cultura japonesa é diferente da que lidamos no dia-a-dia em animês, e não é tão fácil, como parece, superar certos traumas (principalmente para as gerações anteriores). Mas, assim como o termo é ruim, ele também é bom, pois sua real definição foi sendo perdida com o advento da internet, que miscigenou o mesmo ao redor do mundo e o deu nova forma. Isso aconteceu de tal forma, que atualmente é impossível dizer com 100% de certeza a origem do termo (por isso mesmo que este artigo não tenta fazê-los aceitarem isso como verdade absoluta).

Quando eu era novo (não, não sou velho, calma lá... isso foi lá pelo ano 2000) e frequentava o ensino médio, a internet ainda não era algo tão comum. Usávamos conexão discada, evitávamos usar páginas na internet com muitas imagens, animações... Clipes de músicas, por exemplo, tinham o tamanho de 10MB e demoravam uma tarde inteira para baixar, ou seja, eu não possuía o costume de ler este tipo de material que leio hoje, mas mesmo assim, o simples fato de apreciar os animês que passavam na TV aberta da época (Manchete e Band), ou comprar os poucos animês das bancas de jornal, era um fator estranho entre amigos. Ser considerado como criança, viciado, estranho (lembremos que estamos no país do futebol) e até mesmo marica (termo mais pejorativo para gay, quando na época, era bonito ofender os outros dessa forma), eram tratamentos comuns, fazendo com que até mesmo eu, ficasse na minha e não comentasse sobre esse gosto com os outros. Hoje em dia, o próprio mundo é outro, e assim, as pessoas encaram isso mais como “gosto” e entendem que o conteúdo não é somente de conotação “infantil”, mas, ainda assim, é considerado um costume “estranho”.

Esta postagem não tem por intenção dizer: “Denomine-se Otaku”; “Denomine-se fã de animê”; “Não se denomine”. O teor é compartilhar informações, opiniões e, principalmente, cultura de uma forma diferenciada. Afinal, do que adianta olharmos animês, lermos mangás e light novels, se nem ao menos temos uma noção sobre do que somos chamados? Se você vai se considerar um termo ou outro, é opção sua. Assim como não querer se encaixar em nenhum, que, desculpe, mas apesar da sua opção, vivemos em sociedade, logo, somos taxados por termos o tempo todo. A única coisa é: tenha em mente que idiomas e palavras não são estáticos. Antigamente, aquário era o que conhecemos por piscina, e piscina era o que conhecemos por aquário. Emboscada significa, além do seu termo que todos conhecem, esconder-se no bosque. Sendo assim, não julgue pejorativamente quem se denomina Otaku, mas ao mesmo tempo, entenda que você, detentor de um pouco mais de conhecimento, tem o direito de escolher (não de obrigar alguém) um dos dois termos para você.